O dia que deveria ser uma realidade na vida de todos os brasileiros

O dia que deveria ser uma realidade na vida de todos os brasileiros

Diante de uma data como esta, onde se comemora o Dia da Consciência Negra, ao tempo que celebro o dia em epígrafe, destaco a importância de essa consciência racial tornar-se uma realidade em nosso país.

Chega ser estranho pensar que, uma vez por ano, reunimos esforços para em um único dia, celebrarmos a consciência negra, quando na verdade, sabe-se que durante os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, pessoas são injustiçadas em função de sua cor, enfrentam discriminações ao procurar uma vaga de emprego e, ademais, milhares de jovens negros deixam de sonhar e são transformados em estatísticas por causa de sua raça.

 Relembrar a consciência negra é um compromisso diário de cada um de nós, pois quando olhamos para a história do nosso país, ela nos releva que foi por meio do esforço e do suor injusto de vidas negras que o Brasil chegou onde está hoje. Tal responsabilidade é aumentada ao constatar-se, por meio dos dados do IBGE, que mais da metade da população brasileira, mais precisamente 54% dos brasileiros se autodeclaram negros. Avaliando esses e outros contrastes, conclui-se que ainda há um longo caminho a ser trilhado no que diz respeito à igualdade racial no Brasil. Todavia, em datas como essa, o que não pode ocorrer é a negação da existência do racismo no Brasil e de posturas que reforcem a tese do mito de democracia racial. Infelizmente, o racismo ainda é uma realidade em nosso país e precisa ser constantemente combatido por meio de criação de leis sérias que compreendam a dinâmica racial e da aplicação eficaz das mesmas.

 E foi pensando no cumprimento de uma das minhas responsabilidades como deputado federal, atuar como fiscalizador das ações do Poder Executivo, que recentemente, solicitei ao governo federal a ampliação de campanhas de combate ao racismo nos estádios e clubes de futebol. Inclusive, o Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2018 revelou um crescimento do número de casos de racismo nos últimos anos. No ano passado, dos 79 casos de discriminação envolvendo o futebol analisados pelo estudo, 52 que equivalem a 66%, tratavam-se de discriminação racial que ocorreram tanto em solo nacional como no exterior.  O relatório apontou também que 63% das vítimas de tais ofensas eram os atletas.  Mediantes fatos como esses, pode-se inferir que, uma das dimensões do preconceito racial é não conseguir enxergar o negro ocupando espaços de poder. É por isso que sempre digo que a igualdade racial será atingida quando tivermos mais atletas, médicos, advogados, professores, juízes, desembargadores e políticos negros. Pois, só assim pretos e pardos deixarão de ser destaque nas estatísticas de violência e desigualdades para juntos formarem quadros de referência para jovens e crianças negras.  

 Ainda analisando as estatísticas de desigualdade racial, o Atlas da Violência publicado em 2019, revelou que os cinco estados com as maiores taxas de homicídios de negros estão localizados no nordeste. E é muito triste saber que o estado do Pernambuco, o qual eu represento com imenso orgulho, dispõe da terceira maior taxa de homicídios de pessoas negras. São 73,2 mortos a cada 100 mil habitantes negros. Mas, continuo afirmando que é possível aprender com o passado, sabendo que houve pessoas que mesmo diante de um cenário crítico, optaram por fazer a diferença. Nesse sentido, o estado do Pernambuco contribuiu com veemência para o fim da escravidão, por meio da atuação do jurista, historiador e diplomata Joaquim Nabuco, nascido em Recife em 1849. Embora Nabuco fosse criado por uma família escravocrata, desde pequeno se apresentou como forte defensor abolicionista. Enquanto político, fez campanha contra a escravidão na Câmara dos Deputados em 1878, liderando a bancada abolicionista, posteriormente dedicou-se à fundação da Sociedade Anti-escravidão Brasileira, em 1880, dez anos antes que abolição ocorresse de fato.

Portanto, é hora de transformar esses indicadores negativos que estão em destaques hoje. Nossas crianças precisam conhecer a história de personalidades negras que foram além, ultrapassaram barreiras e venceram o preconceito racial, como fez a pernambucana Lia de Itamaracá, cantora e compositora, conhecida com a “rainha da ciranda” que embora dedicasse a maior parte de sua vida como merendeira de escola pública, não deixou que as adversidades lhe impedisse de compor lindas canções, espalhando cultura e arte por onde passa.  Como exemplo a ser seguido, também devo mencionar o poeta Solano Trindade, outro negro pernambucano que nos deixou grandioso legado. Nascido em Recife – PE, sempre se mobilizou para a discussão da temática racial, inclusive, participou do I Congresso Afro-Brasileiro realizado na capital pernambucana. Além disso, foi responsável pela organização da Frente Negra Pernambucana, que foi a primeira tentativa de se criar um partido político eminentemente negro no Brasil.

A vida do negro brasileiro passa pelo drama da resistência constante ao racismo em todos seus aspectos, do campo de futebol à violência racial que destroem os sonhos da juventude. Sabendo que a consciência negra deve fazer parte de todos os dias das nossas vidas e não apenas, no dia 20 de novembro. Em todos os momentos, nós, afrodescendentes, lutamos diuturnamente para mostrar que a cor da pele não influência em nada a nossa capacidade intelectual ou de nos relacionar com as pessoas.

Que essa consciência dure mais que apenas um dia e que seja uma realidade, um fato na vida de todos os brasileiros!

Ossesio Silva é deputado federal pelo Republicanos Pernambuco

 

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